Ressonâncias de um FTLiano…

By admin

                                                                                                                                                         Por Luiz Felipe Xavier

luiz felipeDe acordo com René Padilla, FTLiano é uma pessoa que faz parte da Fraternidade Teológica Latino-Americana.

Há uma semana, na cidade de São Paulo, aconteceu a Consulta Continental comemorativa de 45 anos da FTL. O aspecto mais relevante dessas consultas é o reencontro dos amigos de caminhada. Além de reencontrá-los, podemos ouvi-los, o que sem dúvida é muito enriquecedor. Como uma das maiores riquezas da FTL é a não uniformidade teológica, sempre que nos reunimos, precisamos colocar em prática o que Paulo nos ensinou em 1 Tessalonicenses 5:21: “(…) julgai todas as coisas, retende o que é bom (…). Este ensino do apóstolo é enfatizado na chamada “Regra Inaciana”, que diz: “Para que tanto aquele que dá os exercícios espirituais como o exercitante mais se ajudem e aproveitem, há de se pressupor que todo bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo do que a condená-la; e se a entende mal, corrija-a com amor. Caso tal não bastar, recorra a todos os meios convenientes para que, bem entendida, seja salva.”. É exatamente com este espírito de salvar, mais que de condenar, que quero compartilhar as minhas ressonâncias sobre a Consulta Continental da FTL. Para tal, o farei destacando o que mais me enriqueceu. Não citarei quem falou o que para tornar a leitura mais fluida.

A FTL nasce no ceio do movimento estudantil na América Latina. Entre os seus objetivos destacam-se a reflexão bíblica, a atenção ao contexto e a ação pastoral-missional. Quando os pastores-teológos da FTL se encontravam sempre tinha uma mesa posta e vários textos para reflexão. Logo, a Teologia da Missão Integral é gestada por muita produção textual e por muita discussão fraterna. Digno de nota é que os seus primeiros líderes eram pessoas sábias e experientes, simples e acessíveis.

A Teologia da Missão Integral, mais do que uma teologia, é uma missiologia. É uma missiologia que chama um povo à obediência da fé. Ela não é uma reflexão sobre Deus, numa perspectiva metafísica, mas é uma reflexão a respeito da práxis da Igreja, numa perspectiva missiológica. Assim, em seus primórdios, ao invés de dialogar com a filosofia, ela preferiu dialogar com as ciências sociais. Esse diálogo a levou a considerar sempre o contexto, tanto do leitor atual como do autor original do texto sagrado. Ela entendeu bem cedo que para ser relevante precisava ser contextual. Isso porque, como afirma Frei Beto, “a cabeça pensa onde estão os pés”.

A Teologia da Missão Integral tem como seu fundamento último a Bíblia Sagrada. Desde o início, ela procurou abrir o Livro para fazer uma teologia desempacotada. A Palavra de Deus é que tinha autoridade para julgar a realidade, não o contrário. Assim sendo, em sua leitura contextual das Escrituras, a Teologia da Missão Integral tomou o Reino de Deus como sua chave hermenêutica. Este Reino foi proclamado por Jesus Cristo aos pobres da Galiléia. Por estes, aquele fez uma opção preferencial, não exclusiva e absoluta. Tal opção foi marcada por um serviço desinteressado e por uma convocação aos seus discípulos para fazer o mesmo.

Com o passar do tempo, a Teologia da Missão Integral começou a dialogar com outras ciências e a ocupar-se com diversos temas. Dentre esses temas, alguns se destacam. Primeiro, o tema da negritude. Penso que estamos sendo desafiados a romper com uma ordem social pigmentocrática. Segundo, o tema da sexualidade. Considero que estamos sendo desafiados a manter os valores da família original, tais como heterossexualidade, monogamia e intenção de permanência. Terceiro, o tema da criança. Acho que estamos sendo desafiados a nos indignar frente à exclusão das crianças, estas que são as principais vítimas da desigualdade social que nos acomete. Quarto, o tema do meio ambiente. Penso que estamos sendo desafiados a aprender com os índios sobre sustentabilidade, e a resistir a um modelo civilizatório predador e consumista. Quinto, o tema da diáspora. Considero que estamos sendo desafiados a abraçar, não a excluir, os estrangeiros-imigrantes que chegam no nosso país. Sexto, o tema dos pentecostalismos. Acho que estamos sendo desafiados a redescobrir as dimensões da mística e da experiência na vida cristã. Sétimo, o tema dos chamados “desigrejados”. Penso que estamos sendo desafiados a viver uma espiritualidade comunitária, uma espiritualidade que seja terapêutica àqueles que sofreram e sofrem traumas religiosos. Oitavo, o tema do diálogo inter-religioso. Considero que estamos sendo desafiados a crescer na compreensão de que o diálogo se dá a partir da afirmação da nossa identidade, não da negação da mesma. Nono, o tema da globalização sócio-político-econômica. Acho que estamos sendo desafiados a desenvolver uma ética social que leve em consideração os princípios da Revelação de Deus. De tudo que ouvi e julguei, isto foi parte do que retive de bom.

Porém, apesar de tudo isso, não posso deixar de fazer algumas críticas. Sinto-me à vontade para fazê-lo porque o faço de dentro. Na programação, em geral, senti falta de algo que sempre esteve presente em nossas consultas: devocionais e orações. Lemos a Bíblia e oramos muito pouco. Isso comprometeu parte do discernimento, da relativização e da denúncia do nosso próprio contexto, o que sempre foi muito caro à FTL e à Teologia da Missão Integral.

Por fim, ressalto dois importantes momentos. Ao longo da nossa consulta, tivemos a oportunidade de homenagear três dos chamados “pais” da Teologia da Missão Integral: René Padilla, Samuel Escobar e Pedro Arana. Sou grato a Deus pela vida e ministério destes preciosos irmãos. No fim da nossa consulta, aconteceu a eleição da nova diretoria da FTL-B. A diretoria da qual eu fiz parte foi substituída por uma nova. Na pessoa do David Mesquiati, nosso novo presidente, peço a Deus que abençoe esta nova diretoria. Que ela desfrute da mesma fraternidade que a diretoria passada desfrutou. Também sou grato a Deus pela vida do Lyndon, do Carlinhos, da Lucy, do Silvério e do Robinson, pessoas com quem tive o privilégio de conviver nestes últimos três anos. O que aprendi com eles, eu guardarei em meu coração.

A minha oração é que a boa mão de graça do Senhor permaneça sempre sobre a nossa querida FTL!

(Fuente: Blog do Luiz Felipe Xavier,  http://www.blogdoluizfelipexavier.blogspot.com/2015/06/ressonancias-de-um-ftliano.html )